18 março 2009

Amuado

Assim que arranquei com o bólide, em direcção à escola, a pequena cria começou, tagarela, a debitar palavras a torto e a direito.

De repente, fez uma pausa e chamou: “Pai, pai!

Sim, filha. O que foi?” – respondi-lhe.

A resposta foi qualquer coisa como Gonçalo amuado ou Gonçalo muado ou Gonçalo nuado da Joana.

Engoli em seco e olhei para a mãe, que, com um sorriso doce, se antecipou e, antes que eu pudesse dizer fosse o que fosse, voltou a perguntar à filhinha o que é que ela tinha dito.

A resposta foi a mesma, que é como quem diz “O Gonçalo é o namorado da Joana”.

Enquanto a minha querida mulher se desfez em risos e, depois, em conselhos do género “beijocas só nas bochechas”, eu engoli em seco e continuei a guiar, sem dizer uma palavra – eu, sim, amuado – e a pensar na vida…

Não que me importe que a filhinha namore, nada disso, desde que o rapazito seja educado, bom aspecto e respeitador.

O problema é que estamos em tempo de crise e não me parece que haja por aí uma qualquer instituição bancária que me faculte o empréstimo para comprar o tal tanque de guerra.

O Papá

17 março 2009

"Pais"?

Há meia dúzia de dias atrás, ouvimos falar da tragédia dum bebé que ficou esquecido pelo pai dentro dum carro.

Ontem, ou anteontem, a notícia de dois irmãos que ficaram a brincar dentro dum carro, enquanto os pais iam buscar malas, ou coisa parecida, e que, acidentalmente ou não, destravaram a viatura que se despenhou por uma ravina de 20 metros abaixo.

Hoje, a notícia dum bebé de dezanove meses que estava a brincar numa varanda dum quinto andar e que se estatelou no alpendre do primeiro, depois de uma queda de 10 metros.

O primeiro morreu; os dois irmãos estão hospitalizados em estado considerado muito grave; o terceiro, hospitalizado está, em coma.

Quem me conhece, sabe que sempre fui apologista de que as pequenas crias devem aprender por elas mesmas e, dentro dos limites considerados seguros e razoáveis, sempre dei liberdade à nossa filhinha para explorar o mundo que a rodeia e, assim, assimilar o que é bom ou mau, seguro ou perigoso, verdadeiro ou falso e outros adjectivos similares.

Sei que muita gente me poderá considerar insensível mas, como pai que sou, continuo sem entender como é que acidentes deste calibre podem acontecer, a não ser por um total desleixo e estupidez nata.

O Papá

Animalejos voadores

Com esta vaga de dias mais quentes, a natureza, que tanto me fascina, sofre algumas mudanças e aparecem algumas coisas novas.

Ontem, depois do jantar, o papá estava a arrumar a loiça e reparou que, lá fora, andavam uns animalejos voadores num enorme corrupio.

Assim que o papá me chamou, fui a correr para a cozinha e ficámos os dois à janela para ver o que se passava, e, efectivamente, lá andavam dois ou três morcegos a esvoaçar dum lado para o outro.

Claro que, àquela velocidade, não consegui ver bem o raio do bicho, e, ainda que percebesse que tem asas, o papá já me disse que não são passarinhos…

Não são piu-pius, papá! São mucegos!


A Cria

16 março 2009

Momentos de ternura

Nada melhor e mais gratificante do que ver a felicidade estampada na cara da filhinha quando puxa pelos pescoços dos papás para ficarmos os três abraçados.

13 março 2009

Esquecimentos e lembraduras

Ontem, esqueci-me de picar o cartão de ponto depois de almoçar; lembrei-me – vá lá, lembrei-me – de ir comprar papel higiénico, algo de que me tinha esquecido anteontem; esqueci-me, há uns dias atrás, da porra do relógio, mas lembrei-me de pôr gasolina, e ainda bem, porque o bólide já andava a vapores; lembrei-me de comer meia sandes, a meio da manhã, porque, no meio da correria dos faxes e dos telefonemas, a barriga começou a fazer uns ruídos maliciosos; esqueci-me do euro milhões; ao abrir a porta de casa, para sair para mais um dia de trabalho, olhei para os pés da minha mulher e, com um sorriso gozão, lembrei-a de que ainda estava de pantufas; esqueci-me de dar comida aos peixes mas, ao passar ao lado do aquário, houve um estímulo cerebral que me lembrou desta tarefa caseira; tranquei a viatura à porta de casa, sim, tranquei, mas voltei atrás para confirmar porque, ao chegar a casa, estava com a impressão de que não o tinha feito; lembrei-me de mudar a fralda à pequena criatura e de lhe atirar com um bocado de pó de talco para cima das partes mais íntimas, porque reparei que estava um bocado assada; esqueci-me de pagar a conta do telemóvel, mas o operador mandou-me uma mensagem escrita para me relembrar.

Lembrei-me de sentar a pequena criatura na cadeirinha e de lhe apertar o cinto, antes de arrancar com o bólide rumo ao infantário.

Não me esqueci de a tirar da cadeirinha e de a levar, juntamente com a mochila, provida de fraldas, lanche e outros artefactos que fazem falta a uma bebé, para dentro da escola.

Não me esqueci de me baixar para lhe dar um beijo, desejar-lhe um bom dia e recomendar-lhe que se portasse bem.

Talvez não tenha o direito – e acredito, até, que não tenha – de julgar o “pai” que se esqueceu da pequena cria dentro do carro, durante três horas e debaixo da torreira do sol, provocando-lhe a morte, mas é daquelas coisas que não me cabem na carola e que acho totalmente inconcebíveis, apresentem as desculpas que apresentem, como cansaço, stress, excesso de trabalho e afins.

Não consigo, nem quero, imaginar a angústia por que este homem está a passar e que o vai atormentar para o resto da sua vida, a não ser que enfie um balázio pelos cornos dentro, e que é, sem dúvida, o maior castigo que se lhe pode aplicar, mas daí a manifestar o meu apoio e solidariedade…

Ter pena dum “pai” que esquece um filho dentro dum carro?

Não contem comigo!

O Papá

NOTA – Também publicado no Sempre-a-Produzir

12 março 2009

Três noites

Assim de repente, e que tenhamos reparado, já lá vão três ou quatro noites em que a filhinha adormece sem estar agarrada à fralda e a um peluche.

Aninha-se, numa posição resultante duma mistela entre as maneiras de dormir da mãe e do pai, e adormece passados alguns minutos.

Mais um sinal associado ao crescimento das pequenas crias?

Se assim for, fica a faltar o sinal de largar a porra da fralda, coisa que está a demorar mais do que o previsto.

Porco dançante

Ainda eu era muito pequenina quando os papás me ofereceram um “buguinho”, muito engraçado, que desata a dançar, que nem maluco, quando lhe apertamos a pata.

Lembro-me que os papás usavam, frequentemente, o “buguinho” para me distraírem enquanto me davam a pápa.

Desde que tenha pilhas, o malandro do “buguinho” ainda dança, se bem que um bocado coxo, e com dores nas articulações, fruto dos inúmeros abraços que eu lhe dei e da minha mania em querer obrigá-lo a fazer uns passos dançantes diferentes daqueles a que estava habituado.

Ontem, a mamã fez-me uma grande surpresa e presenteou-me com um porquinho dançante.

O bicharoco vai andando ao som da música, com um ar muito engraçado, e, se lhe puxarmos o rabo, desata a grunhir – a grunhir que nem um porco, obviamente – e até parece que solta umas valentes bufas sonoras.

Um delírio, enquanto as pilhas durarem…

A Cria

10 março 2009

A meio da noite

Por volta das duas da manhã, percebi que havia alguém a passear algures entre o corredor e a sala, muito provavelmente o papá que deveria estar a papar umas bolachinhas e a beber um copo de leite, como é seu hábito.

Levantei-me e lá fui indagar.

Era mesmo o papá que, imediatamente, me fez dar meia volta numa tentativa de me levar para a minha caminha…

Tentativa, sim, porque nem a desculpa de que o meu quarto estava quentinho me demoveu do meu propósito nocturno, ou seja, ir dormir, sim, mas na cama dos papás.

Hoje, ao acordar na minha caminha, fiquei um bocado confusa, porque lembro-me de adormecer, quentinha, entre a mamã e o papá, mas não dei por nada quando me levaram de volta para o meu quarto.

A Cria

09 março 2009

Aspirador malandreco

Bem sei que a culpa é de quem estava a manusear o aspirador, neste caso a mamã, mas mais vale acusar o aspirador e assim ninguém fica triste.

Só sei que as únicas coisas que ouvi foi um “sssrrrrullllp”, um berro de aflição e, já com uma voz mais calma, a mamã a pedir-me desculpas, com um sorriso malandro.

Depois, foi a vez do papá, que lá teve que ir para a rua rasgar o saco do aspirador e rebuscar, lá no meio do pó e do lixo, a minha meia que tinha sido aspirada por engano, enquanto eu fiquei, agarradinha à mamã, a chorar compulsivamente e a gritar pela meia.

Assim que o papá tocou à campainha, corri para a porta e verifiquei, toda contente, que a meia voltou, sã e salva, cansada da aventura e pronta para ir para a máquina da roupa, de tão porca que estava, a coitadinha da meia.

A Cria

07 março 2009

Coisas que gosto - 12

Mais uma prova

Amanhã, o papá vai para mais uma prova nos popós pequeninos e, por ser muito cedo, a mamã e eu vamos ficar na ronha.

Como é costume, o papá começa a preparar as coisas na véspera, para poder dormir mais uns minutos e para ter a certeza que, no meio da pressa, não se esquece de nada, e eu aproveitei a deixa para ensaiar um pouco do ritual que envolve esta coisa dos apetrechos para guiar um popó pequenino…

Como o equipamento da mamã estava no mesmo saco que o do papá, decidi dar uma ajudinha nas arrumações, não sem antes ver se ainda falta muito para que as luvas da mamã e a carapuça me sirvam na perfeição…

A Cria

06 março 2009

Porcaria de tempo

Depois duma grande correria matinal, cheguei à escolinha para dar de caras com a novidade de que o passeio que íamos realizar hoje, até Santarém, para visitar a Expo Criança, tinha sido cancelado por causa do mau tempo.

Parece que fica para a semana e só espero que, dessa vez, o tempo ajude.

A Cria

04 março 2009

Coisas que gosto - 11

Além dos peixinhos do aquário, adoro tudo o que é animal e acompanho, cada vez mais, os papás quando estão a ver aqueles programas interessantes sobre a natureza.

Esta loucura animalesca começa a deixar os papás algo preocupados e com um ar apreensivo quando tentam explicar-me que nem todos os animais são bonzinhos e pacientes com as pessoas, sejam elas grandes ou pequenas.

Em todo o caso, já ouvi uns zun-zuns que, agora que estou mais crescida e que já percebo certas coisas da vida, os papás me vão levar ao Jardim Zoológico para me explicarem um pouco mais sobre certos animais.

A Cria

02 março 2009

Gelado de morango

Ainda não tinha dito, mas os papás compraram, há uns meses atrás, uma maquineta muito engraçada e prática que dá pelo nome de Bimby.

Uma cozinheira eléctrica, por assim dizer, que faz uma data de coisas boas, que, por vezes, nem nos lembrávamos de fazer, sem dar muito trabalho.

Recentemente, o papá teve – diz ele – a infeliz ideia de fazer gelado de morango, uma delícia pela qual fiquei fanática.

Hoje, antes do jantar, resolvi “bimbar” e, munida do meu degrau portátil, ajudei a mamã a fazer o delicioso gelado…

Uma farra, que deu direito a ficar toda lambuzada quando apanhei os papás pelas costas e, de colher em riste, decidi que, antes de ser lavado, o copo da maquineta tinha que ficar bem limpinho.

A Cria